Casa do Sertanista: a Casa Bandeirista do Século 17 no Caxingui
No meio do Caxingui, cercada pela malha urbana, há uma casa de taipa de pilão construída no século 17. Ela é tombada pelo estado e pelo município, abre de graça de terça a domingo, e a maioria dos moradores do Butantã nunca entrou.
A Casa do Sertanista, também chamada de Casa do Caxingui, é um dos poucos exemplares de arquitetura bandeirista que restaram em São Paulo. E a história de como ela sobreviveu é tão interessante quanto a casa.
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Uma casa que era também um posto de vigilância
A primeira coisa a entender sobre a Casa do Sertanista é que ela não foi construída ali por acaso.
A casa fica a cerca de 150 metros da margem direita do Córrego Pirajuçara, num ponto estratégico entre o córrego e o caminho que levava aos Campos de Curitiba. O Pirajuçara nasce no Embu, corre por cerca de 17 quilômetros e desagua no Rio Pinheiros muito perto de outra casa bandeirista, a Casa do Butantã, hoje conhecida como Casa do Bandeirante.
A posição sugere que a casa guardava o chamado “caminho de cima”, trajeto usado na estação das chuvas, quando as enchentes tornavam impraticável o caminho que corria junto ao córrego. Esse caminho de cima coincide hoje com a Avenida Professor Francisco Morato e com o trecho inicial da Rodovia Régis Bittencourt.
A arquitetura confirma a leitura. As paredes são extensas e têm poucas aberturas: há uma única janela em cada fachada, na frente e nos fundos. Para os pesquisadores, isso enfatiza o caráter militar do edifício, que além de moradia servia à defesa dos acessos ao Planalto de Piratininga.
Em outras palavras: a casa era parte de um sistema. Um conjunto de construções espalhadas pelo território, cada uma vigiando um caminho.
Como ela é por dentro e por fora
A Casa do Sertanista se organiza em três lanços, com planta retangular e paredes em taipa de pilão, a técnica de terra compactada que caracterizou praticamente toda a construção paulista até meados do século 19. O registro do CONDEPHAAT menciona também o uso de pau-a-pique.
O telhado de quatro águas tem longas curvaturas, detalhe que aproxima a casa de outros exemplares conhecidos, como a Casa do Mandu e a Casa do Padre Inácio.
Chamam atenção os dois alpendres, um na fachada principal e outro nos fundos, solução que também aparece nas casas do Butantã e do Mandu. A varanda reentrante, característica das casas bandeiristas, é limitada de um lado por uma parede e do outro por um pequeno compartimento. No interior, uma sala se comunica com três compartimentos e com a varanda dos fundos.
O conjunto obedece a um esquema fechado e rígido. Nas palavras dos pesquisadores, a casa parece solidamente ligada ao chão em sua horizontalidade.
De quem foi a casa
Aqui a história fica nebulosa, e isso faz parte do assunto.
Pouco ou nada se sabe com certeza sobre a posse da propriedade antes do fim do século 19. O que os registros mostram é a sequência mais recente:
| Período | Proprietário |
| Século 17 | Ocupação do sítio, sem documentação precisa |
| Fim do século 19 | Família Beu |
| Início do século 20 | Família Penteado |
| 1937 | Companhia City |
| 1958 | Doada à Prefeitura de São Paulo |
A Companhia City, nome pelo qual ficou conhecida a City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Limited, foi fundada em 1912 e teve papel central no desenvolvimento urbanístico da cidade. É a mesma empresa que loteou o Caxingui e outros bairros da região.
O registro do CONDEPHAAT acrescenta um elo: no início do século 20 a casa teria sido adquirida por Alberto Christie, que a vendeu em 1917 a Alberto Penteado, junto com 22 alqueires da propriedade.
Quem salvou a casa
Esta é a melhor parte da história, e quase ninguém conta.
Em 1958, quando a Companhia City loteava a área, a casa corria risco de desaparecer no processo. Foi então que Paulo Florençano, conservador da Casa do Bandeirante, solicitou à empresa loteadora a doação do terreno onde a casa se situava.
Florençano procurou Luís Saia, o principal estudioso da arquitetura bandeirista paulista, para pedir a colaboração do IPHAN na restauração. A obra se concretizou pela Prefeitura de São Paulo, sob orientação do IPHAN, e foi executada pela Construtora Adolpho Lindenberg.
O restauro começou em 1966 e terminou em 1970, quando a casa foi aberta ao público com o nome de Casa do Sertanista.
Vale registrar o contraste: nos anos 1940, a casa ainda estava numa região que não era totalmente urbanizada. Hoje está completamente envolvida pela cidade.
A tradição sobre o Padre Belchior de Pontes
Há uma história que circula sobre a casa, e ela merece ser contada com cuidado.
Uma monografia de 1936, publicada na Revista do Arquivo Municipal por Baptista Pereira, faz referência à casa como sendo a casa dos pais do Padre Belchior de Pontes.
O padre existiu e é um personagem notável. Belchior de Pontes (1644 a 1719) foi um jesuíta paulista que nasceu justamente às margens do rio Pirajuçara, numa fazenda da família. Estudou no colégio jesuíta de São Paulo, voltou para ajudar na lavoura e, em 1667, quis entrar na Ordem, mas não foi aceito. Seguiu para a Bahia, completou o noviciado, foi ordenado e enviado de volta às missões de São Paulo. Fluente na língua indígena, atuou por mais de quarenta anos em aldeamentos como Carapicuíba, Araçoiaba, Araçariguama, Embu, Itaquaquecetuba e São José.
A coincidência é sugestiva: o padre nasceu nas margens do Pirajuçara, e a casa está a 150 metros do mesmo córrego.
Mas a atribuição não é comprovada. O pesquisador Júlio Katinsky, em tese defendida na FAU-USP em 1972, registra que a identificação da casa como sendo a dos pais de Belchior de Pontes veio de informantes locais, segundo Luís Saia, e não de documentação. A casa ficava próxima ao caminho obrigatório para o Embu, onde o então SPHAN fez restaurações importantes no fim da década de 1930.
Ou seja: é uma tradição local plausível, não um fato estabelecido. E o próprio silêncio documental diz algo sobre como o patrimônio paulista foi tratado.
Um tombamento tardio e uma crítica pertinente
A Casa do Sertanista é tombada em duas instâncias:
🏛️ CONDEPHAAT (estadual): tombada em 28 de dezembro de 1983, com inscrição no Livro do Tombo Histórico sob o nº 213, a partir do Processo 22264/82 e da Resolução 22, de 15 de dezembro de 1983.
🏛️ CONPRESP (municipal): tombada em 5 de abril de 1991, pela Resolução nº 05/91.
Há aqui uma discussão que vale registrar. Em estudo publicado em 2008, a pesquisadora Lia Mayumi observa que a falta de informações históricas mais aprofundadas sobre a casa está ligada ao fato de o órgão federal não lhe ter reconhecido valor histórico e artístico, diferentemente do que ocorreu com exemplares como o Sítio Santo Antônio, a Casa do Padre Inácio e o Sítio Morrinhos, sobre os quais foram reunidas informações de épocas bem recuadas.
Ela nota que mesmo o processo de tombamento estadual é lacônico, resumindo-se a dois pareceres do professor Carlos Lemos, que se ateve aos aspectos arquitetônicos do edifício. E Lemos fez uma observação importante: o valor da casa deveria ser atribuído em relação ao conjunto total das moradias bandeiristas, e não ao imóvel isolado.
É uma chave útil para quem visita. A Casa do Sertanista não é apenas uma casa antiga. Ela é uma peça sobrevivente de uma rede.
Uma casa de um conjunto
Essa leitura de conjunto ajuda a entender por que a casa importa.
As casas bandeiristas que restaram na região formam um pequeno grupo, e várias estão perto: a Casa do Bandeirante, antiga Casa do Butantã, fica no próprio distrito; a Capela do Morumbi está no distrito vizinho. O Museu da Cidade de São Paulo já dedicou uma exposição inteira a esse trio de territórios, reunindo Morumbi, Caxingui e Butantã.
Para quem mora aqui, é um roteiro de patrimônio colonial a poucos quilômetros de casa, e todo gratuito.
O que a casa já abrigou
Depois do restauro, a casa teve vários usos, e essa trajetória é parte do seu valor:
| Período | Uso |
| 1970 a 1987 | Museu do Sertanista, voltado à cultura indígena |
| 1987 | Fechada para obras de conservação |
| 1989 a 1993 | Núcleo de Cultura Indígena da União das Nações Indígenas, onde se instalou a Embaixada dos Povos da Floresta |
| 2000 a 2007 | Museu do Folclore “Rossini Tavares de Lima” |
| 2008 a 2012 | Novo restauro |
| 2012 | Reabertura com a exposição “A Casa das Fontes”, da artista Sandra Cinto |
O episódio de 1989 chama atenção. Uma casa construída no século 17, num sistema voltado à defesa contra ataques indígenas, passou a sediar três séculos depois a Embaixada dos Povos da Floresta, articulação ligada ao movimento indígena. Poucos prédios em São Paulo carregam uma inversão dessas.
Hoje a casa integra o Museu da Cidade de São Paulo como exemplar da arquitetura colonial paulista.
O bairro ao redor
A casa fica na Praça Ênio Barbato, no Caxingui, e é cercada por uma área verde de uso público, com regras estabelecidas em portaria da Secretaria Municipal de Cultura. Vale conferir no local o que é permitido antes de planejar piquenique ou atividade em grupo.
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Como visitar
📍 Endereço: Praça Ênio Barbato, s/n, Caxingui, São Paulo/SP, CEP 05517-040
🕘 Horário: terça a domingo, das 9h às 17h
🎟️ Entrada: gratuita
👥 Visitas individuais: espontâneas, sem necessidade de agendamento
🏫 Grupos e escolas: agendamento por educativomuseudacidade@gmail.com
🚇 Metrô mais próximo: São Paulo-Morumbi, da Linha 4-Amarela
🚌 Ônibus: consultar linhas no site da SPTrans
🏛️ Instituição: Museu da Cidade de São Paulo
Perguntas frequentes
A Casa do Sertanista é a mesma coisa que a Casa do Caxingui?
Sim. O mesmo imóvel aparece com os dois nomes. O CONDEPHAAT registrou o bem como “Casa do Caxingui”, e o CONPRESP como “Casa do Sertanista no Caxingui”.
Precisa pagar para entrar?
Não. A visita é gratuita.
Precisa agendar?
Não para visitas individuais. Grupos e escolas devem agendar por e-mail.
De quando é a casa?
De meados do século 17, segundo estudos do arquiteto Luís Saia.
A casa é tombada?
Sim, em duas instâncias: pelo CONDEPHAAT, no âmbito estadual, em 1983, e pelo CONPRESP, no âmbito municipal, em 1991.
A casa pertenceu mesmo à família do Padre Belchior de Pontes?
Não há comprovação documental. A informação aparece em uma monografia de 1936, mas a literatura especializada registra que a identificação veio de informantes locais.
Dá para visitar outras casas bandeiristas na região?
Sim. A Casa do Bandeirante, antiga Casa do Butantã, fica no mesmo distrito, e a Capela do Morumbi no distrito vizinho.
Texto produzido para o Portal do Butantã, sua referência sobre a Zona Oeste de São Paulo. Informações verificadas em 16 de setembro de 2026 no Museu da Cidade de São Paulo, nos registros do CONDEPHAAT e do CONPRESP e no projeto Casas Bandeiristas.

