A História da USP no Butantã
Poucos lugares em São Paulo concentram tanta história da ciência e do ensino brasileiro quanto o bairro do Butantã. Foi ali, numa antiga fazenda de nome indígena, que nasceu não só o instituto que deu fama mundial à pesquisa sobre soros e venenos, mas também o maior campus universitário da América Latina: a Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira, sede da Universidade de São Paulo (USP).
Uma fazenda com passado revolucionário
Antes de ser campus, o Butantã era a antiga Fazenda Butantã, parte de uma sesmaria concedida ainda no século XVI ao minerador Afonso Sardinha — o mesmo que descobriu ouro de aluvião no Pico do Jaraguá. O nome “Butantã” vem do tupi e é interpretado de duas formas: “terra socada e muito dura” ou “lugar de vento forte”.
A região também guarda um capítulo da história política do Brasil: foi ao pé do Morro do Butantã, às margens do ribeirão Pirajuçara — bem onde hoje fica a entrada da Cidade Universitária —, que aconteceram os primeiros combates da Revolução Liberal de 1842, quando sete revoltosos foram derrotados pelas tropas do Barão de Caxias.
1934: a fundação da USP
A criação da USP está diretamente ligada a um movimento de reconstrução da elite intelectual paulista após a derrota na Revolução Constitucionalista de 1932. Uma geração de intelectuais — entre eles o jornalista Júlio de Mesquita Filho, de O Estado de S. Paulo, e o educador Fernando de Azevedo — defendia havia anos, desde uma campanha iniciada em 1926, a criação de uma universidade pública, laica e voltada à pesquisa, nos moldes do modelo alemão.
O projeto se concretizou em 25 de janeiro de 1934, quando o interventor federal em São Paulo, Armando de Salles Oliveira, assinou o Decreto Estadual nº 6.283, criando a Universidade de São Paulo. O primeiro reitor foi o jurista Reynaldo Porchat. À nova universidade foram agregadas escolas já existentes, como a tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (fundada em 1827) e a Escola Politécnica, além da recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) — pensada como o núcleo de integração entre as diferentes áreas do conhecimento, reunindo os embriões dos atuais cursos de física, química, matemática, ciências biológicas, letras e filosofia.
A escolha do Butantã
Com as escolas da USP espalhadas por instalações provisórias pela cidade, ficou claro desde o início que a universidade precisava de um campus próprio. Em junho de 1935 — pouco mais de um ano após a fundação —, Armando de Salles Oliveira nomeou uma comissão, presidida pelo reitor Reynaldo Porchat, para escolher o terreno. Dela participavam nomes como Ernesto de Souza Campos, Ernesto Leme, o escritor Mário de Andrade (então diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura), Afrânio do Amaral (diretor do Instituto Butantan) e Fernando de Azevedo.
Foi Paulo Duarte, um dos entusiastas do projeto, quem sugeriu a Fazenda Butantã — área ainda pouco ocupada, salvo pelo próprio Instituto Butantan, criado décadas antes. Segundo o relato histórico, Duarte e Mesquita Filho acompanharam Armando de Salles Oliveira em uma visita ao local para avaliar a viabilidade: entraram pelos fundos do instituto, mediram a extensão do terreno e imaginaram ali a disposição das futuras faculdades.
Vale lembrar que o próprio Instituto Butantan já era, desde 1901, uma referência científica internacional: criado para produzir soro contra a peste bubônica e depois consagrado por suas pesquisas sobre venenos de serpentes sob coordenação do médico Vital Brazil, o instituto deu nome e identidade científica à região muito antes da chegada da universidade.
Ao final, a área reservada para a Cidade Universitária somou cerca de 200 alqueires paulistas — metade do que se planejava originalmente, mas suficiente para consolidar o projeto.
Décadas de construção lenta
Diferentemente do que se poderia imaginar, o campus não saiu do papel rapidamente. A pedra fundamental da Cidade Universitária só foi lançada em 1944, dez anos depois da fundação da USP, e as obras avançaram a passos lentos nas décadas seguintes, prejudicadas por sucessivos problemas orçamentários. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) foi um dos primeiros a se instalar na região, ainda em meados dos anos 1940.
A virada de ritmo veio a partir de 1956, quando o governador Jânio Quadros assinou a lei que batizou oficialmente o campus de “Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira”, em homenagem ao fundador da USP. Mas foi sobretudo com a criação do Fundo de Construção da Cidade Universitária, em 1960, durante a gestão do reitor Antônio Barros de Ulhôa Cintra, que o projeto ganhou fôlego financeiro real: os recursos destinados à USP saltaram de 210 milhões de cruzeiros (1955–1958) para 1,5 bilhão (1959–1962), permitindo contratar arquitetos renomados e erguer, finalmente, os prédios das principais faculdades.
Um marco simbólico da nova fase é a Praça do Relógio Solar, com sua torre projetada pelo arquiteto Rino Levi — até hoje um dos pontos mais reconhecíveis do campus — e a escultura de relógio solar assinada por Caetano Fraccaroli, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP).
A transferência dos cursos para o Butantã
Ao longo dos anos 1960, unidade por unidade, a USP foi transferindo seus departamentos do centro da cidade para o novo campus. O professor Shozo Motoyama, que na época era aluno do curso de Física, relembrou décadas depois que a mudança foi motivada sobretudo pela necessidade de espaço para equipamentos de pesquisa nuclear — e que, por volta de 1964, praticamente todos os laboratórios de Física já estavam instalados na Cidade Universitária.
Esse processo coincidiu com um dos períodos mais turbulentos da história recente do Brasil: o início da ditadura militar. A universidade não ficou imune à repressão política — o Conjunto Residencial da USP (CRUSP), moradia estudantil erguida próxima à Praça do Relógio, chegou a ser fechado pelo regime, e diversos estudantes e professores foram perseguidos, presos ou exilados. Ainda assim, a mudança para o Butantã também trouxe um efeito positivo: a ampliação do espaço físico permitiu aumentar o número de vagas e tornar o ensino superior público mais acessível.
O campus que se tornou uma pequena cidade
Hoje, a Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira ocupa mais de 3,7 milhões de metros quadrados no Butantã — daí o apelido de “cidade” dentro da cidade. Além da Reitoria e da maioria das unidades de ensino, pesquisa e extensão da USP, o campus abriga instituições que se somaram ao longo das décadas, como o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), o próprio IPT, o Instituto Geográfico e Cartográfico (IGC), a Academia de Polícia, o Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo e a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.
A Faculdade de Medicina é um bom exemplo de como esse processo de ocupação nunca foi uniforme: mesmo décadas depois da criação do campus, ela manteve parte de sua estrutura — como o Hospital das Clínicas — fora do Butantã, na Avenida Doutor Arnaldo, enquanto o ciclo básico do curso e institutos como o de Ciências Biomédicas (ICB) passaram a funcionar dentro da Cidade Universitária.
Um bairro moldado pela universidade
A chegada da USP transformou profundamente o entorno do Butantã. Bairros vizinhos como City Butantã, Vila Indiana e Caxingui se desenvolveram em boa parte por causa do fluxo de estudantes, professores e servidores atraídos pela universidade, e a região se consolidou como um dos maiores polos de ciência, tecnologia e cultura da cidade — a ponto de o distrito abrigar, segundo levantamentos recentes, o maior número de museus de São Paulo.
Passados mais de noventa anos desde a fundação da USP e quase setenta desde que a Cidade Universitária ganhou esse nome, o Butantã segue sendo, antes de tudo, sinônimo de universidade: um bairro que nasceu fazenda, ganhou fama pela pesquisa de venenos e se tornou, com o tempo, o coração acadêmico de São Paulo.

