O Cemitério Israelita do Butantã foi inaugurado em 1953 e guarda o Monumento às Vítimas do Nazismo. Veja história, endereço, horários e como visitar.
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Cemitério Israelita do Butantã: História, Memória e o Monumento às Vítimas do Nazismo

Há um monumento na zona oeste de São Paulo que recebe turmas de escola e pesquisadores há mais de cinquenta anos, e que quase ninguém do distrito sabe que existe. Ele fica dentro do Cemitério Israelita do Butantã, foi erguido em 1974 em homenagem aos seis milhões de judeus assassinados na Segunda Guerra Mundial, e guarda uma urna com cinzas trazidas de um campo de concentração na Polônia.

Este é um lugar de luto e de memória, não um ponto de visitação turística. Mas é também um dos endereços mais importantes da história recente do Brasil, e vale a pena saber o que ele guarda.

Onde fica, e por que o nome diz Butantã

O cemitério leva o nome do Butantã, mas o endereço está na Avenida Engenheiro Heitor Antônio Eiras Garcia, 5.530, no Jardim Educandário. Esse trecho pertence ao distrito do Rio Pequeno, um dos cinco distritos da Subprefeitura do Butantã.

O nome não está errado: ele se refere à região do Butantã em sentido amplo, como era comum quando o cemitério foi inaugurado, nos anos 1950, e a área toda era muito menos ocupada do que hoje.

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1953: como o cemitério nasceu

O Cemitério Israelita do Butantã foi inaugurado em 1953 e é administrado pela Chevra Kadisha, a Associação Cemitério Israelita de São Paulo.

A entidade é bem mais antiga que o cemitério. Foi fundada em 23 de fevereiro de 1923, com o nome de Sociedade Cemitério Israelita, a partir da união de três organizações da comunidade judaica paulistana: a Comunidade Israelita de São Paulo, a Congregação Israelita Askenazi e o Centro Israelita. O objetivo era administrar o primeiro cemitério judaico da capital, na Vila Mariana, criado três anos antes. O primeiro presidente foi Hugo Lichtenstein, e a diretoria tinha dois representantes de cada entidade fundadora.

Hoje a Chevra Kadisha cuida de cerca de 32 mil sepulturas em quatro cemitérios: Butantã, Vila Mariana, Embu e Cubatão. O do Butantã é descrito pela própria associação como o mais conhecido cemitério israelita de São Paulo.

O Monumento em Memória às Vítimas do Nazismo

Erguido em 1974, é o principal espaço de memória do cemitério e homenageia os seis milhões de judeus assassinados durante a Segunda Guerra Mundial. Recebe visitas de escolas e de historiadores.

Na inauguração, foi depositada ali uma urna com cinzas de judeus mortos no campo de concentração de Majdanek, na Polônia. Essas cinzas estavam enterradas desde 1950 no Cemitério Israelita da Vila Mariana e foram transferidas para o novo monumento.

O monumento é o ponto de chegada da Marcha da Vida, que acontece a cada dois anos. O cemitério também concentra as cerimônias anuais de Yom HaShoá, o dia de lembrança das vítimas do Holocausto, e de Kever Avot, a visita tradicional às sepulturas dos antepassados.

O Setor G e a memória da ditadura militar

Esta é a parte mais difícil da história do cemitério, e a mais importante.

O Memorial da Resistência de São Paulo, ligado ao Governo do Estado, inclui o Cemitério Israelita do Butantã no seu mapeamento de lugares de memória da repressão e da resistência no Brasil republicano. O motivo é que estão sepultados ali militantes e opositores mortos por agentes do Estado durante a ditadura militar, entre eles o jornalista Vladimir Herzog, a psicóloga e professora Iara Iavelberg, o estudante de medicina Gelson Reicher e o estudante universitário Chael Charles Schreier.

Vladimir Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura, morreu em outubro de 1975, sob custódia do DOI-CODI de São Paulo. A versão oficial do regime foi suicídio. O Instituto Vladimir Herzog registra que ele foi morto sob tortura e que o suicídio foi encenado pelos agentes. O sepultamento aconteceu no Cemitério Israelita do Butantã e teve repercussão nacional e internacional.

Um debate histórico que ainda não está fechado

A versão mais difundida é que o rabino Henry Sobel se recusou a sepultar Herzog na ala destinada a suicidas, enterrando-o no meio do cemitério, como forma de a comunidade judaica não aceitar o atestado de suicídio emitido pelo Estado. É um gesto que entrou na história do país.

A historiadora Beatriz Kushnir, que pesquisou os sepultamentos no local, registrou dados que complicam essa narrativa. Segundo ela, a então ala dos suicidas ficava no Setor G, entre as quadras 25 e 28. Iara Iavelberg está no Setor G, quadra 26. E a sepultura de Vladimir Herzog está no Setor G, quadra 28, ou seja, dentro daquele mesmo trecho, e não no meio do cemitério.

Kushnir também observa que a fotografia mais conhecida de Sobel com Clarice Herzog no cemitério, tomada por muitos como prova da presença do rabino no enterro, mostra a lápide de Herzog já instalada. Isso indica que a imagem é de cerca de um ano depois, na cerimônia da matzeivá, o descerramento da lápide.

Registros da imprensa da época apontam que apenas um cantor litúrgico e membros da Chevra Kadisha representaram a fé judaica no enterro. Sobel declarou à imprensa no dia seguinte que os rituais foram seguidos rigorosamente conforme a lei judaica e que sua ausência se deveu a um compromisso profissional no Rio de Janeiro.

Nada disso diminui o peso simbólico do episódio nem a recusa da comunidade em aceitar a versão do Estado. Mostra apenas que a história do lugar continua sendo apurada, e que pesquisa de campo em cemitério é fonte primária de história do Brasil.

As mulheres que foram sepultadas sem nome

Há no cemitério um grupo de sepulturas que ficou décadas sem identificação.

São de mulheres judias, em boa parte vindas do Leste Europeu entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do 20, que foram traficadas para a prostituição no Brasil. Ficaram conhecidas pelo termo pejorativo da época, “polacas”. Marginalizadas pela comunidade organizada em vida, foram sepultadas no Cemitério Israelita do Butantã sem identificação nas lápides.

A pesquisa de Beatriz Kushnir sobre essas mulheres teve um desdobramento concreto: depois da publicação de sua dissertação, a Chevra Kadisha de São Paulo tomou a iniciativa de recolocar os nomes nas lápides.

Em fevereiro de 2000, o rabino Henry Sobel conduziu a reza no descerramento da matzeivá dessas sepulturas. Segundo o relato de Kushnir, ele escolheu deliberadamente uma data em que o cemitério estaria cheio, a mesma da matzeivá de Leon Feffer, e convidou os presentes a acompanhá-lo até as lápides. E assim foi feito.

É a história de um reparo, e ela aconteceu aqui, na zona oeste de São Paulo.

Quem está sepultado no Cemitério Israelita do Butantã

O cemitério reúne figuras centrais da vida pública brasileira. Alguns nomes com registro público de sepultamento no local:

NomeÁrea
Silvio SantosApresentador de televisão e empresário
Vladimir HerzogJornalista, professor e dramaturgo
Samuel KleinEmpresário, fundador das Casas Bahia
Iara IavelbergPsicóloga e professora
Alberto GoldmanPolítico
Anita NovinskyProfessora e historiadora
Nydia LiciaAtriz, diretora e produtora
Carlos BrickmannJornalista e escritor
Salomão MalinaDirigente político
Girsz AronsonEmpresário do varejo
Léo SantosApresentador de televisão e empresário
Gelson ReicherEstudante de medicina
Chael Charles SchreierEstudante universitário

Como visitar, e com que cuidado

Antes de qualquer coisa: este é um cemitério em atividade, onde famílias enterram seus mortos e cumprem rituais religiosos. Não é um roteiro de passeio. Quem for, vai em silêncio e com respeito, como iria a qualquer cemitério.

📍 Endereço: Av. Eng. Heitor Antônio Eiras Garcia, 5.530, Jardim Educandário, São Paulo/SP, CEP 05564-100

📞 Telefones: (11) 3782-0909 e (11) 3782-0910

🕘 Atendimento: segunda a quinta, das 8h às 17h. Sextas-feiras até as 16h. Domingos, das 8h às 13h. Feriados até as 12h

🏛 Administração: Chevra Kadisha, Associação Cemitério Israelita de São Paulo

📧 Contato da entidade: faleconosco@chevrakadisha.org.br

🔍 Localizar uma sepultura: a Chevra Kadisha mantém busca online por nome, sobrenome e campo santo, e informa a data de Yortzait

 

⚠  Sobre o sábado

O horário divulgado pela administração não inclui o sábado, o que é coerente com a observância do Shabat. Se você precisa ir num fim de semana, o domingo é o dia, com atendimento só até as 13h.

 

💡  Costumes de visita

A tradição judaica tem práticas próprias em cemitério, diferentes das de cemitérios cristãos. É comum, por exemplo, deixar uma pedra sobre a sepultura em vez de flores. Se for a primeira vez, vale ligar antes e confirmar as orientações com a administração.

Perguntas frequentes

Onde fica o Cemitério Israelita do Butantã?

Na Av. Eng. Heitor Antônio Eiras Garcia, 5.530, no Jardim Educandário, distrito do Rio Pequeno, dentro da Subprefeitura do Butantã.

Quando foi inaugurado?

Em 1953, segundo a Chevra Kadisha, que administra o cemitério.

Quem administra?

A Chevra Kadisha, Associação Cemitério Israelita de São Paulo, fundada em 1923. Ela administra quatro cemitérios judaicos: Butantã, Vila Mariana, Embu e Cubatão.

Onde Silvio Santos está sepultado?

No Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo.

Qual o horário de atendimento?

Segunda a quinta, das 8h às 17h. Sextas até as 16h. Domingos, das 8h às 13h. Feriados até as 12h.

O cemitério pode ser visitado por quem não é da família?

É um cemitério em funcionamento e um espaço de luto. Visitas devem ser tratadas com o respeito correspondente. Para grupos, escolas ou pesquisa, o caminho é falar antes com a administração.

O que é o Monumento em Memória às Vítimas do Nazismo?

Um monumento erguido em 1974 em homenagem aos seis milhões de judeus assassinados na Segunda Guerra Mundial. Na inauguração foi depositada uma urna com cinzas de vítimas do campo de concentração de Majdanek, na Polônia.

Como localizo a sepultura de um parente?

A Chevra Kadisha oferece busca online por nome e sobrenome, com a opção de filtrar por cemitério, e informa a data de Yortzait.

 

Informações verificadas em 16 de setembro de 2026 no site oficial da Chevra Kadisha, Associação Cemitério Israelita de São Paulo, em material da FISESP sobre a história da entidade e em texto da historiadora Beatriz Kushnir publicado pelo Instituto Brasil Israel. Horários podem mudar. Confirme por telefone antes de ir.

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